Profa. Dra. Marta Helena Fillet Spoto - Henraq

Profa. Dra. Marta Helena Fillet Spoto

Professora Associada da Escola Superior de Agricultura “Luiz da Queiroz” - Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), com atuação na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, especialização em Irradiação de Alimentos, Análise sensorial e Processamento de Frutas e Hortaliças, com ênfase em frutas nativas. Possui Graduação em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP, Mestrado e Doutorado em Energia Nuclear na Agricultura pela USP; upgrade em irradiação de alimentos pelo General Training Course on Food Irradiation, oferecido pelo International Facility for Food Irradiation Technology (IFFIT), em Wageningen – Holanda; participação em projeto conjunto ao Instituto Canario de Investigaciones Agrarias e Instituto Del Frío em Madri. Sua produção científica conta com mais de 150 artigos completos publicados em periódicos nacionais e internacionais; também se somam produções em livros e capítulos de livros; trabalhos publicados em anais de congressos; textos em jornais ou revistas. Sob sua orientação acadêmica já atuaram mais de 200 alunos em atividades de iniciação científica, pós-graduação e supervisão de pós-doutorado. Atuação como coordenadora em inúmeros projetos de pesquisa financiados por agências de fomento nacionais e internacionais, bem como em convênios com empresas nacionais e estrangeiras. Em administração já atou em chefia de departamento, coordenação de curso de pós-graduação e membro titular de congregação e conselhos deliberativos da ESALQ-USP. Atualmente, ela possui mais de 200 produtos cadastrados no SISGEN – Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado.

Profa. Dra. Marta Helena Fillet Spoto

1. Atualmente as frutas estão muito em evidência devido a sua relação com a saudabilidade. Quais seriam as principais diferenças entre frutas nativas brasileiras e exóticas? Qual a importância delas no mercado brasileiro e no mercado exterior?

Falar ou escrever sobre frutas é algo complexo, seja pela qualidade sensorial, seja pela saúde que nos proporciona, traduzindo em aumento de qualidade e expectativa de vida. Pelo equilíbrio entre vitaminas, minerais, antioxidantes, carboidratos e fibras, a fruta contribui para o bom funcionamento do aparelho digestivo, atuando na prevenção e controle de inúmeras doenças como cardíacas, câncer, diabetes, além de ser um calmante natural e favorecer a perda de peso, tornando-a indispensável a nossa alimentação diária.

Conceituando-se frutas nativas, essas são originárias de uma determinada região, podendo ser um país, estado ou mesmo local onde se encontram, diferentemente de frutas exóticas, as quais são cultivadas em regiões distantes do seu local de origem.

O Brasil é um grande produtor de frutas nativas e exóticas, colocando-se entre os três maiores produtores mundiais, atrás apenas da China e da Índia. Em relação à exportação, o País se encontra como o primeiro exportador mundial de laranja, considerando-se a fruta processada na forma de suco, mesmo tratando-se de uma fruta exótica que se adapta muito bem ao clima e solo brasileiros. Outros exemplos de frutas exóticas, além da própria laranja, originária do sul da China, são a manga e jaca da Índia e a banana e uva da Ásia.

Em relação às frutas nativas brasileiras, as mais conhecidas, como abacaxi, caju, maracujá, goiaba e guaraná, fazem parte do nosso cardápio e são produzidas e consumidas em larga escala no País e exterior, inclusive.

O nosso país é rico em outras espécies de frutas originárias de várias regiões, as quais nem sempre são exploradas ou mesmo conhecidas em locais mais distantes, devido à imensidão do território nacional, sendo comercializadas e consumidas pela população local e, por isso, correndo o risco de extinção.

Citando como exemplo, na região da Amazônia, além das frutas nativas mencionadas anteriormente, temos como exemplo o açaí, o cupuaçu, a camu-camu, o bacuri, o murici, o cajá, o tucumã, enfim, que, além dos sabores peculiares, são ricas em compostos benéficos à saúde, como vitaminas, compostos fenólicos, antocianinas, carotenoides, fazendo desses frutos a fonte de matéria-prima para vários tipos de produtos alimentícios, de beleza, fármacos etc.

2. É correto afirmar que o processo de obtenção dessas frutas nativas brasileiras é sustentável? Qual a aplicação dessas frutas nativas na nossa alimentação? Poderia citar exemplos?

As frutas nativas mais conhecidas no Brasil, como abacaxi, caju, maracujá, goiaba e guaraná, são comercializadas no País e exterior, principalmente, nas formas in natura e de polpa. No processo de colheita essas frutas são selecionadas ainda no campo, sendo as de melhor qualidade visual encaminhadas ao packing house, onde são beneficiadas, passando pelos processos de lavagem, sanitização, classificação e embalagem, antes de serem transportadas para o mercado interno ou exterior. As frutas de menor qualidade visual, mas com características fisiológicas e microbiológicas adequadas, são processadas nas formas de polpa. No processamento toda a fruta é aproveitada, sendo o bagaço peletizado e fornecido na alimentação animal, ou extraídos outros compostos como a pectina comercial para fabricação de geleias e demais subprodutos.

Entretanto, o Brasil possui mais de 500 espécies nativas pouco conhecidas no próprio País e no exterior, as quais são coletadas na forma extrativa, nas florestas ou savanas e comercializadas nos locais de coleta, nas formas in natura ou subproduto, como geleias, licores, farinhas, conforme o costume e tradição local. Essa produção se torna sustentável na medida que a planta, sendo perene, continua produzindo ano a ano, após a coleta dos frutos, mas, como dito anteriormente, corre o risco de extinção devido à baixa produção e pouco conhecimento tecnológico de cultivo e aproveitamento dessas frutas.

3. Diante desse cenário, qual é a sua previsão para o futuro com relação as frutas nativas brasileiras?

As universidades e os institutos de pesquisa estão fazendo há anos um trabalho muito importante no estudo das frutas nativas do Brasil, tanto em sua caracterização quanto na transformação em produtos industrializados, mas a previsão para o futuro será de extinção, caso não haja um esforço permanente dos órgãos governamentais e da sociedade no sentido de valorizar o uso dessas frutas, seja na gastronomia ou mesmo na indústria cosmética ou farmacêutica, aproveitando os benefícios isolados que essas frutas proporcionam ao consumidor. Com isso aumentaria o interesse mercadológico e, consequentemente, o aprimoramento das tecnologias de produção e comercialização.

4. Como estão os estudos sobre essas frutas nativas na ESALQ USP?

Na ESALQ, estudos sobre a caracterização e aproveitamento são realizados de forma integrada em vários Departamentos, como o de Agroindústria, Alimentos e Nutrição (LAN), Ciências Florestais e Produção Vegetal. O Grupo de Estudos e Extensão de Frutas e Hortaliças (GEFH-LAN), iniciou seus estudos com frutas nativas do Brasil em 2003. A primeira fruta a ser estudada foi a juçara, fruta nativa da Mata Atlântica; a partir daí começaram estudos com outras frutas desse e de outros biomas brasileiros, como uvaia, cambuci, grumixama, feijoa, cambucá, araçá, pitanga, cereja do Rio Grande, jaracatiá, camu-camu, cupuaçu, murici, buriti etc. envolvendo a caracterização e viabilidade desses frutos in natura e processados, como polpa congelada, ou desidratada por métodos convencionais adiabáticos, liofilização ou atomização, cujas tecnologias de cunho prático e efetivas no processo de conservação, objetivam a colocação desses produtos nos mercados distantes no país e no exterior.